O meu amor tinha fome e eu tirava as ervilhas da jardineira e a cebola crua da salada.
O meu amor gostava da mesa sempre posta e eu bordei a toalha de linho.
O meu amor tinha febre e eu fazia chá de lúcia-lima e punha-lhe um paninho fresco na testa.
O meu amor tinha frio e eu ia cortar lenha.
O meu amor queria um jardim e eu plantei o hibisco e as roseiras, mais o azevinho e o pinheiro.
O meu amor queria descendência e eu pari os filhos dele.
O meu amor queria silêncio e eu calava a casa toda.
O meu amor queria conversar e eu escutava.
O meu amor ansiava pelo meu corpo e eu dava-lho com muito prazer.
O meu amor gostava de parecer bem e eu passava as camisas como a minha mãe me ensinou, primeiro o colarinho depois as mangas, frente, costa, frente.
O meu amor queria passear e eu estendia os mapas na mesa da cozinha.
O meu amor fazia anos e eu planeava a surpresa.
O meu amor desejava e eu fazia que acontecesse.
O meu amor ia envelhecer comigo e eu encostei duas cadeiras no alpendre.
O meu amor trazia muitas preocupações do trabalho e eu enxotava-as com broas de mel e um cálice de licor.
O meu amor vinha cansado e eu aliviava-lhe o fardo.
O meu amor vinha irritado e eu desarmava-o com o meu melhor sorriso.
O meu amor estava rico e construímos um castelo.
O meu amor estava sem dinheiro e eu fiz malabarismos com o porta-moedas.
O meu amor discutia ao almoço e eu concordava para não lhe espantar a fome.
O meu amor adormecia e eu caminhava pela casa com pezinhos de lã e silêncios nas mãos.
O meu amor era um menino e eu ajudei-o a crescer até ele ficar gigante.
O meu amor sonhava e eu enfiava-me no sonho dele.
O meu amor quis partir à descoberta de novidades e eu deixei-o ir.
E se um dia o meu amor voltar, cansado doente e com fome, digam-lhe que já cá não estou. Estou a fazer chá num bule novo.

 

Graça Rodrigues (autora e colaboradora)