O cair do pano, em Portalegre...


Leio a notícia* e pasmo. Volto a reler e recorro ao caos dos papeis, gavetas, amontoados de livros, revistas, o meu mundo. E por lá encontro: 

"... Ai de mim! parto amanhã para Portalegre! Parece que fica lá para o coração do Alentejo; ainda não sei bem, nem quero saber: Preciso de conservar os restos de ânimo que tenho. Portalegre! que gente irei eu encontrar, Santo Deus!..." 

Assim mesmo. Era assim que em 3 de Outubro de 1929, José Régio, então com 28 anos, num misto de ansiedade e timidez, um pé em Deus outro no Diabo, partia para Portalegre, cidade do Alto Alentejo...

Algum tempo depois, melancólico mas já conformado, desabafaria na 'Pensão 21', onde se acolhera...

"... É uma terra distante quatro léguas da estação. O que tem de bom é ter montes em roda, que se sucedem como as ondas do mar. O meu único meio de fugir à asfixia desta vida monótona - é passear por eles com os pés e com a imaginação... Deixo completo o quadro da minha vida actual, se lhe disser que aos domingos, segundas, e quintas vou a um teatrinho de província ver fitas que já vi. No tal teatrinho, há um jazz-band!, único sinal de civilização nestas paragens. Você calculará que não é uma perfeição. Mas enquanto desafina, ainda é ele quem me ajuda a transportar-me a Paris, a voar sobre intermináveis caminhos de ferro, a delirar em New-York... ou a viver novamente em Lisboa, Coimbra, no Porto, ou com vocês, na Granja... Só sonhando o homem é livre."

Régio por ali ficou quatro dezenas de anos, onde professou muito e escreveu mais, coleccionou cristos e alminhas do diabo, e assim se foi moldando aos montes e à distância, àquelas gentes e à preguiça, aos saberes e aos sabores. 

Não sei bem se o poeta chegou a ganhar sotaque no Alentejo, mas que terá conseguido algo bem mais profundo e enraizado, sinto que sim. E, talvez porque, como dele escreveu Agustina, a amizade exige cortesia e civilidade, nunca mais terá esquecido "... aquela dona de pensão que, para ser absolutamente gentil, só lhe faltariam alguns anos a menos... aquele quarto de trabalho enorme, calado, abobadado como uma igreja...", ou mesmo, "... o giro pelos arredores, o ópio dos horizontes sem limites..."

Talvez por tudo isto, ao ler aquela notícia, me lembre de Régio, dos meus avós e de onde vim. Daquele Alentejo que nunca saiu de mim e do teatrinho onde talvez nunca tenha entrado, mas é como se lá estivesse agora, de pé, aplaudindo o Poeta, as suas peças e tudo o mais que por ali acontecia. Em Portalegre, cidade do Alto Alentejo...

* (o Teatro de Portalegre, fundado em 1858, encontra-se à venda no OLX; ali levou à cena José Régio a sua primeira peça de teatro, ali se despediu dos palcos Amélia Rey Colaço em "El-Rei D. Sebastião" do mesmo Régio. Ali se fez cultura. Muita e em tempos difíceis. Foi um oásis. Secou!...)

Adelino Pires, 19,fev.19 - Alfarrabista de Torres Novas